Entre os instrumentos de renda fixa disponíveis no Brasil, as Letras Financeiras (LF) são ainda pouco conhecidas pelo investidor pessoa física — o que é uma pena, pois oferecem rentabilidades que muitas vezes superam os CDBs dos mesmos bancos emissores.

Criadas para captar recursos de longo prazo, as LFs são títulos de dívida emitidos por instituições financeiras autorizadas pelo Banco Central. Elas funcionam de forma parecida com os CDBs, mas têm características próprias que as tornam mais adequadas para certos perfis de investidor.

Se você busca rentabilidade superior à média da renda fixa com segurança e sem depender do FGC para valores menores, vale a pena entender este instrumento em detalhes.

O Que São as Letras Financeiras

A Letra Financeira é um título de crédito de longo prazo emitido por bancos, cooperativas de crédito e outras instituições financeiras. Foi criada em 2010 pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) com o objetivo de oferecer às instituições financeiras uma fonte de captação de recursos mais estável e de prazo mais longo.

As LFs podem ser prefixadas, pós-fixadas (geralmente atreladas ao CDI) ou híbridas (IPCA + spread). As pós-fixadas atreladas ao CDI são as mais comuns.

Características principais:

  • Prazo mínimo: 2 anos (sem possibilidade de resgate antecipado)
  • Valor mínimo de aplicação: R$ 50.000 (para pessoa física)
  • Cobertura do FGC: Não tem (acima de R$ 50 mil)
  • Tributação: Tabela regressiva de IR (começa em 22,5%, chega a 15% após 720 dias)
  • Quem pode emitir: Bancos, cooperativas, financeiras autorizadas pelo Bacen

O ponto crítico que diferencia a LF dos CDBs comuns é a ausência de cobertura do FGC para valores acima de R$ 50.000. Isso exige que o investidor seja mais criterioso na escolha da instituição emissora.

Letras Financeiras vs. CDB: Qual a Diferença?

A comparação mais direta é com o CDB, que também é emitido por instituições financeiras:

CaracterísticaLetra FinanceiraCDB
Prazo mínimo2 anosLivre (há CDB de 1 dia)
LiquidezSem resgate antecipadoVaria (há CDBs com liq. diária)
Valor mínimoR$ 50.000Pode ser R$ 1
Cobertura FGCNão (acima de R$ 50k)Sim (até R$ 250k por CPF/instituição)
RentabilidadeGeralmente superiorInferior para o mesmo emissor
AcessibilidadeInvestidor qualificado ou varejo com capitalQualquer investidor

A rentabilidade superior das LFs compensa a menor liquidez e a ausência de FGC — mas apenas se o investidor tiver capital de longo prazo e souber analisar o risco da instituição emissora.

Para investidores com menos de R$ 50.000 disponíveis ou que precisam de acesso ao dinheiro em menos de 2 anos, um CDB com liquidez diária ou o Tesouro Selic é mais adequado.

Rentabilidade das Letras Financeiras em 2026

Com a Selic em patamar elevado, as LFs têm oferecido rentabilidades bastante atrativas. Em geral:

  • LF de bancos de primeira linha (Itaú, Bradesco, Santander): 100% a 105% do CDI
  • LF de bancos médios com boa avaliação: 108% a 118% do CDI
  • LF subordinada (maior risco, sem FGC mesmo abaixo de R$ 50k): 120% a 130% do CDI

Com o CDI próximo a 13% ao ano, uma LF a 115% do CDI equivale a uma rentabilidade bruta de aproximadamente 14,95% ao ano. Após IR de 15% (para prazos acima de 720 dias), o rendimento líquido seria de cerca de 12,7% ao ano.

Compare esse número com a poupança (7,5% ao ano) ou com um CDB de banco grande a 90% do CDI (~11,7% ao ano bruto, ~9,9% líquido) e a diferença se torna evidente.

Como Avaliar o Risco de uma LF

Como não há cobertura do FGC para o valor total da aplicação, a análise do emissor é fundamental. Considere:

Rating de crédito: Agências como Fitch, Moody's e S&P avaliam instituições financeiras no Brasil. Prefira emissores com rating de grau de investimento (BBB- ou superior).

Índice de Basileia: Mede a solidez do banco. Acima de 11% é o mínimo exigido pelo Bacen; acima de 15% indica boa capitalização.

Liquidez da instituição: Analise se o banco tem boa posição de caixa e diversificação de fontes de captação.

Porte e histórico: Bancos maiores com décadas de operação têm menor probabilidade de default, embora não seja garantia.

Uma boa prática é diversificar entre LFs de 2 ou 3 emissores diferentes, reduzindo a concentração em uma única instituição. Assim como na montagem de uma carteira conservadora, a diversificação é sempre seu melhor aliado.

Letras Financeiras Subordinadas: O Que São e Quando Faz Sentido

Existe uma variação chamada LF Subordinada, que tem características adicionais de risco:

  • Em caso de liquidação do banco, os credores de LF Subordinadas ficam atrás dos demais credores (mas à frente dos acionistas)
  • Não têm cobertura do FGC mesmo abaixo de R$ 50.000
  • Em contrapartida, oferecem rentabilidades ainda maiores: geralmente 120-135% do CDI

As LFs Subordinadas contam para o capital regulatório do banco, o que explica a rentabilidade maior. São adequadas apenas para investidores com alta tolerância a risco e que fazem análise criteriosa do emissor.

Para a maioria dos investidores conservadores, as LFs comuns (não subordinadas) já oferecem o equilíbrio ideal entre rentabilidade e risco.

Onde Comprar Letras Financeiras

As LFs estão disponíveis principalmente em:

Plataformas de renda fixa: XP Investimentos, BTG Pactual, Genial e outras corretoras oferecem LFs de diferentes emissores. Compare os percentuais do CDI e os prazos.

Diretamente com o banco emissor: Alguns bancos médios comercializam suas próprias LFs diretamente para clientes private ou de alta renda.

Mercado secundário: Em alguns casos, é possível vender uma LF antes do vencimento no mercado secundário via B3, mas a liquidez costuma ser baixa e o preço pode ser desfavorável.

O processo de compra é similar ao de um CDB: você escolhe o emissor, o prazo, o valor e confirma a aplicação. A diferença é que o dinheiro ficará "preso" até o vencimento.

Conclusão

As Letras Financeiras são um instrumento valioso para o investidor que tem capital de longo prazo (mínimo 2 anos), valores a partir de R$ 50.000 e disposição para fazer uma análise mais aprofundada do emissor.

A combinação de rentabilidade superior ao CDB com tributação decrescente após 720 dias torna as LFs competitivas em relação à maioria dos produtos de renda fixa privada. O principal cuidado é a ausência do FGC, que exige critério na escolha da instituição emissora.

Para quem já tem sua reserva de emergência constituída e busca rentabilizar o patrimônio de longo prazo com segurança relativa, as LFs de bancos sólidos são uma excelente adição à carteira.

Perguntas Frequentes

Letra Financeira tem cobertura do FGC?

As Letras Financeiras não têm cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) para valores acima de R$ 50.000. Para valores abaixo disso, há cobertura apenas para LFs comuns (não subordinadas). Por isso, é essencial analisar bem a saúde financeira do banco emissor.

Qual o valor mínimo para investir em uma LF?

O valor mínimo para pessoa física é R$ 50.000. Isso torna as Letras Financeiras mais acessíveis para investidores com maior patrimônio, já que valores menores se adequam melhor ao CDB ou Tesouro Direto.

Posso resgatar uma LF antes do vencimento?

Não há resgate antecipado garantido. O prazo mínimo é de 2 anos e o investidor deve manter a aplicação até o vencimento. Em alguns casos, é possível vender no mercado secundário, mas sem garantia de preço justo.

LF paga mais que CDB?

Geralmente sim. Para o mesmo banco emissor, a LF tende a pagar entre 5% e 20% a mais do CDI do que o CDB equivalente, justamente porque o investidor abre mão da liquidez e da cobertura do FGC.

Qual a tributação das Letras Financeiras?

As LFs seguem a tabela regressiva do IR: 22,5% para investimentos até 180 dias, 20% de 181 a 360 dias, 17,5% de 361 a 720 dias e 15% acima de 720 dias. Por terem prazo mínimo de 2 anos, sempre atingem a alíquota mínima de 15%.